Audrey não era normal

Patu Antunes em Barcelona

Crônicas de uma mulher vaga Março 10, 2007

Patu Antunes @ 12:45 am

12. O fim dos mistérios

Outro dia li a notícia que arrasou todos os pilares das minhas crenças e, com isso, desconstruiu o que eu entendia como “existência”. Ok, é um dramalhão falar em “existência”, mas esse negócio de “cientificar” tudo no cosmos torna mais difícil acreditar no… intangível? No inexplicável? Pode ser que muita gente não precise de mistério para viver, mas esse não é meu caso. Vou ter que arranjar outra maneira de ver o mundo e tudo por culpa dos cientistas.

Aos fatos: a notícia em questão falava da descoberta, feita por acaso, de que as viagens-astrais são uma criação absolutamente cerebral. Absolutamente. Ou seja, sair do corpo, flutuar, voar e ao mesmo tempo se ver deitado placidamente na cama ou ter a sensação de que “alguém” inexistente nos espreita é imaginação! Não pode ser! Nããããão!!!!!!!

E o que eu faço agora com minhas ilusões? Hein?! Aquelas ilusões de que, por um motivo insondável, por um mistério impossível de explicar em termos racionais, eu pudesse de fato “viajar astralmente” por outras dimensões? Que estar nesse mundo não se limitasse a essa geografia infame? Que muitas outras possibilidades de vida existem num terreno que não seja o ridiculamente cerebral?

Eu sou a primeira a acreditar no incrível potencial da mente – para mim, algo muito maior que o cérebro. Mas as experiências “extra-corpo” sempre foram um terreno deslocalizado. Elas não se encaixavam em cérebro nem em mente, nem em religião, nem em nada. Eram um mistério genuíno. Algo impossível de enquadrar em regras conhecidas. Descobrir que basicamente uns eletrodos aplicados em alguns tecidos cerebrais produzem, num pim pam!, esse enorme mistério me deixou no chão.

Tem coisas que deveriam ser um mistério para sempre. É mais ou menos como descobrir os rituais de beleza de nossas mães. A primeira vez que vi a minha com uma máscara daquelas que se despregam do rosto, quase como a de “Missão Impossível”, meu mundo acabou. Minha mãe era outra mulher, uma que eu nunca tinha visto, uma que se colocava máscaras, cremes, bobs e maquiagens e com eles se transformava. Descobrir a engrenagem do processo de beleza da minha mãe foi um golpe duro.

Deve ser essa mesma sensação que nocauteia alguns homens quando vêem suas mulheres depilando-se. É difícil para eles ver a “verdade”: suas mulheres têm pelos e, a menos que elas os arranquem, sozinhos eles não vão desaparecer. A visão horrenda da cera de depilação grudada no sovaco é forte demais para eles.

Mas agora eu entendo os homens: como é que alguém poderá continuar tendo uma experiência inexplicável se ela já é explicável? Impossível.

Sugiro aos cientistas pararem de destruir as ilusões humanas e se concentrarem em descobrir como prevenir e curar o câncer, eliminar o HIV, acabar com a dependência do cigarro (aliás, de todas as drogas), com a gripe, síndrome do pânico, dor-de-cabeça, cólica, medo de avião, de elevador, de tomar banho e de amar. Isso, sim, seria útil.


 

One Response to “Crônicas de uma mulher vaga”

  1. LuLu Says:

    Hahahahahahaha…
    A minha é tal e qual. Melhor nao tê-los. Consola?
    Prefiro a família que escolho.. Os amigos.

    Já estou de volta à terra brasilis, Paaatchuzinhaaa.
    Falando em família.. Candyma vem almoçar aqui amanhã.


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