The boy with the arab strap: percebo algo em sua herança genética. Nem tudo está perdido, my dear. Só um pouco, mas quem sabe, né? The new generations may be worth it.
1. Hitchcock-tabajara – “Intriga internacional”, “Janela indiscreta” e “Um corpo que cai” são os clássicos dos clássicos do mestre do suspense. Pessoas comuns que se vêem envolvidas nas redes da perversidade humana, para ser bem clichê. Bom, comigo não foi bem assim, mas poderia ter sido e aí eu ficaria contente com o charme. Mas o que rolou foi: eu estava no lugar errado, na hora errada. Porém, nem o assassino percebeu.
Conto: sábado passado, mais ou menos às 12h, assassinaram a tiros um rapaz paquistanês em um apê a três metros da porta da loja onde eu trabalho.
Pergunto: o que tem de errado nessa cena, sem nem comentar o fato de que aqui NINGUÉM carrega arma?
a. Os paquistaneses vivem pra trabalhar nas suas mercearias e locutórios e são o exemplo da virtude. Não se metem com ninguém, ninguém com eles, e ganham a maior bufunfa trabalhando 16 horas por dia de segunda a domingo.
b. 12h, luz do dia, dia-de-luz-festa-de-sol, num bairro turístico, cheio de abobalhados com supercâmaras sem qualquer função filosófica.
c. Eu não trabalho sábados de manhã. Só fui porque Roger queria participar de um workshop de música (brasileira)
Ou seja, que porra eu estava fazendo nos arredores de uma cena impossível com uma vítima improvável?
Graças a deus, porra nenhuma. Porque eu não vi nem ouvi NADA. Mas é justamente por isso que a polícia me inscreveu como testemunha. Se ninguém entrou e ninguém saiu do tal prédio, e nada de absolutamente estranho aconteceu na minha primeira hora de trabalho, as suspeitas recaem sobre… a própria família. No caso, um imenso clã de paquistaneses cordiais e respeitosos.
Isso tudo me provoca uma terrível decepção. E, claro, alívio também. Porque matar alguém a tiros em plena luz do dia aqui é como se alguém informasse que os políticos brasileiros são honestos: uma deformação da realidade. Masssssss, já que a realidade me assalta com algo absolutamente inesperado, sinistramente inesperado, poderia ser para eu, por exemplo, poder dar com exatidão o retrato falado do assassino. Infelizmente, não tenho assassino a descrever. Nem uma imagem borrosa, uma mão, cabelo ou tatuagem, detalhes que poderiam construir o quebra-cabeças de um impiedoso algoz. Acho que não dou pra Agatha Christie.
2. O tal documento – Hoje chegou de Madrid minha certidão de penais. Levei pra traduzir. E só. Minha advogada resolveu ficar de férias hoje e amanhã. Quarta levo lá e ela começa o trâmite – se deixarem, porque olhando as datas com exatidão essa merrrrrrrrrrrda expira em 11 de setembro. (Estou estressada).
3. Dalai Girafa – Jane chegou ontem à noite e nesta segunda, dia10, foi seu aniversário. Meu presente: uma singela mini-escultura de girafa de algum longínquo país africano. Ela amou e imediatamente a batizamos de “Holy Giraffe” ou “The Dalai Giraffe”. É que resolvemos fazer uma homenagem ao Dalai Lama, cuja palestra assistimos hoje. Nós e mais 10 mil pessoas. É verdade. Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, o oceano de sabedoria, falou hoje pra 10 mil pessoas sobre a “arte da felicidade”. Mentira, ele não falou sobre esse livro, escrito por sua santidade em osso. Mas sobre como os seres humanos fazem de tudo para ficarem bem feios e malvados, e muito infelizes. Pra mim, o melhor foi ele responder, ao ser interpelado sobre a existência de deus: “você perguntou à pessoa errada. Deus não é problema meu”. Tudo com uma honestidade e delicadeza exasperadoras. Explicando: o budismo não é uma religião que crê num deus criador e controlador do universo, mas sim na capacidade do ser humano de se colocar em harmonia com o universo na busca da felicidade. Ou seja: que tal se tomamos as rédeas da nossa própria existência e deixamos de esperar pela misericórdia divina? Que tal começar apelar para a razão?
Estou morta de sono e amanhã mil coisas à vista. Beijo.